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NÃO VOTEM!!


No dia das eleições faça tudo que quiserem, vão passear. Ver parentes amigos ou faça um churrasco na sua casa com sua família e amigos.Mas não saiam para votar .Se fizerem isto estarão dando aval ,um "cheque em branco", para o Brasil ser roubado novamente. Por esses "homens" corruptos, assassinos sociais.Ladrões do futuro de nossos filhos, dos empregos, da aposentadoria, para quem realmente ajudou a construir este país.Que deu seu suor , sangue e quando fica idoso é tratado com desrespeito pelo INSS criado para afunilar , enrolar, criar problemas. Para quem realmente merece descansar.Precisamos de uma nova Constituição não feita por esse políticos ladrões,canalhas que não pudor nem vergonha na cara!! Juntamente com as famílias dos quatrocentões bilionários do país , que não se importam com os cidadães humildes. Porque não precisam de dinheiro , quando ficam idoso pois são bilionários a décadas.Nem seus filhos que vão estudar fora do país.Existe uma MAFIA gigantesca de políticos, empresários, bandidos, todos mancomunados, como uma teia , uma rede. Para roubarem o país.Se votarem neles, eles vão assumir seus cargos com poder vão cobrir seus rastros de roubos.Para mais tarde subtraírem milhões de reais dos cofres públicos NÃO VOTEM!! NÓS NÃO SOMOS OBRIGADOS A VOTAR. SE DERMOS PODER A ELES NOVAMENTE.TUDO SE REPETIRA , ACABANDO EM PIZZA QUE CANSAMOS DE VER NAS [C.P.I.]. PENSE NO FUTURO DAS NOSSAS CRIANÇAS??!! NÃO VOTEM!!FAÇAMOS UMA ASSEMBLEIA NACIONAL , LIVRE E SOBERANA. FEITA POR NÓS TODO O POVO DO AMADO BRASIL!!! BRASILEIRO NATO, CASSIUS ROCHA

PAI NOSSO

domingo, 24 de março de 2013

Mobbing - violência psicológica no trabalho



(Publicado na Revista Justiça do trabalho nº 241, p.89)
Márcia Novaes Guedes
Juíza do Trabalho da 5ª Região/BA
Membro do IBDT-Instituto Bahiano de Direito do Trabalho
SUMÁRIO
1. Introdução
2. Assédio Moral não é Assédio Sexual
3. O que é e o que não é "Mobbing"
4. Como se defender do "Mobbing"
5. Conclusão

O presente artigo é uma breve resenha do livro Terror Psicológico no Trabalho  (LTr, março/2003)  da autora.
1. INTRODUÇÃO
"Mobbing", assédio moral ou terror psicológico no trabalho são sinônimos destinados a definir a violência pessoal, moral e psicológica, vertical, horizontal ou ascendente no ambiente de trabalho. O termo "mobbing" foi empregado pela primeira vez pelo etologista Konrad Lorenz, ao definir o comportamento de certos animais que, circundando ameaçadoramente outro membro do grupo, provocam sua fuga por medo de um ataque.
O "mobbing" não é uma violência específica do mundo do trabalho, verifica-se também na escola e na família. Na escola tanto pode ocorrer na relação professor/ aluno, como na relação entre colegas estudantes. Hoje já existem estudos dedicados ao "mobbing infantil". No ambiente familiar, a violência oriunda do "mobbing" normalmente é camuflada e vista como uma simples relação de dominação.
No mundo do trabalho, o assédio moral ou "mobbing" pode ser de natureza vertical - a violência parte do chefe ou superior hierárquico; horizontal - a violência é praticada por um ou vários colegas de mesmo nível hierárquico; ou ascendente - a violência é praticada pelo grupo de empregados ou funcionários contra um chefe, gerente ou superior hierárquico.
O terror psicológico no trabalho  tem origens psicológicas e sociais que ainda hoje não foram suficientemente estudadas. Sabe-se, todavia, que, na raiz dessa violência no trabalho, existe um conflito mal resolvido ou a incapacidade da direção da empresa de administrar o conflito e gerir adequadamente o poder disciplinar.  Por isso mesmo não se pode mitigar a responsabilidade dos dirigentes das organizações no exercício do poder diretivo. Tanto a administração rigidamente hierarquizada, dominada pelo medo e pelo silêncio, quanto a administração frouxa, onde reina a total insensibilidade para com valores éticos, permitem o desenvolvimento de comportamentos psicologicamente doentes, que dão azo à emulação e à criação de bodes expiatórios.
No "mobbing" ou assédio moral, a violência praticada não é percebida à primeira vista, porque os expedientes utilizados pelo agressor são bastante refinados. Essa espécie de violência se caracteriza precisamente pela freqüência e duração dos ataques, daí porque é denominada com propriedade de terror psicológico - expressão, aliás, por nós empregada para intitular a obra que ora resenhamos. A vítima é enredada numa teia armada pelo perverso, que se utiliza de métodos comparáveis aos empregados pelos fascistas e pelos regimes totalitários para submeter os opositores.
A violência psicológica segue uma dinâmica identificada na qual o sujeito perverso emprega várias modalidades de agressões contra a pessoa. A ardileza  das ações praticadas pelo perverso é de tal ordem que dificilmente todas elas encontrariam adequada resposta no rol de crimes aglutinados na legislação penal (veja-se a  classificação descrita no livro "Terror Psicológico no Trabalho").
Como sabiamente já deduziu o leitor, a vítima do assédio moral ou terror psicológico é violentada no conjunto de direitos que compõem a personalidade. São os direitos fundamentais, apreciados sob o ângulo das relações entre os particulares, aviltados, achincalhados, desrespeitados no nível mais profundo. O mais terrível é que essa violência se desenrola sorrateiramente, silenciosamente - a vítima é uma caixa de ressonância das piores agressões e, por não acreditar que tudo aquilo é contra ela, por não saber como reagir diante de tamanha violência, por não encontrar apoio junto aos colegas nem  na direção da empresa, por medo de perder o emprego e, finalmente, porque se considera culpada de toda a situação, dificilmente consegue escapar das garras do perverso com equilíbrio emocional e psíquico para enfrentar a situação e se defender do terrorismo ao qual foi condenada. O dano pessoal, conforme a redefinição do dano moral - tese brilhantemente construída por Paulo Eduardo Vieira de Oliveira - é a conseqüência jurídica imediata que deflui da análise do fenômeno sob o ponto de vista da defesa dos direitos e interesses da pessoa humana.
2.  ASSÉDIO MORAL NÃO É ASSÉDIO SEXUAL
Uma das primeiras preocupações que tivemos, inclusive na escolha do título do livro, foi precisamente afastar a imediata confusão que as pessoas costumam fazer entre assédio moral  e assédio sexual (que entre nós é crime punível com detenção de um a dois anos, CP, art. 216-A, desde a edição da Lei nº 10.224 de 18.05.2001). Dada a novidade do tema entre nós, observamos que a confusão é freqüente, até mesmo no meio especializado.
O "mobbing", assédio moral ou terror psicológico distingue-se do assédio sexual num ponto essencial: no assédio sexual a agressão normalmente é uma violência vertical, de cima para baixo, o agressor ocupa posição hierarquicamente superior ou detém posição privilegiada na empresa e abusa do poder que possui para chantagear a vítima, ameaçando-a com o desemprego, para obter favores sexuais.  O assédio moral é uma violência multilateral, tanto pode ser vertical, horizontal ou ascendente (a violência que parte  dos subordinados contra um chefe), é continuada e isa excluir a vítima do mundo do trabalho, seja forçando-a a demitir-se, a aposentar-se precocemente, como também a licenciar-se para tratamento de saúde. O efeito dessa espécie de violência na vítima é devastador. Uma pesquisa na Suécia verificou que o "mobbing" responde por cerca de 12% dos casos de suicídio. Na maioria dos casos de assédio sexual, o sexo e o grau de subordinação da vítima explicam o assédio.  O mesmo não ocorre com o assédio moral.
No "mobbing", o agressor pode  utilizar-se de gestos obscenos, palavras de baixo calão para agredir a vítima, detratando sua auto-estima e identidade sexual; mas diferentemente do assédio sexual, cujo objetivo é dominar sexualmente a vítima, o assédio moral é uma ação estrategicamente desenvolvida para destruir psicologicamente a vítima e com isso afastá-la do mundo do trabalho. A violência é sutil, recheada de artimanhas voltadas para confundir a vítima. Conforme dissemos, os métodos empregados pelo perverso assemelham-se largamente com aqueles utilizados pelos fascistas para submeter as vítimas e conduzí-las ao cadafalso sem um protesto. Heinz Leymann definiu o "mobbing" como a pior espécie de estresse social e designou-o de psicoterror  (vide  detalhes no capítulo  "Mobbing e Fascismo").
3.  O QUE É O E O QUE NÃO É "MOBBING"
Enquanto escrevíamos estas notas, tomamos conhecimento da primeira   decisão  judicial brasileira proferida pelo Tribunal de Vitória do Espírito Santo  (RO 1315.2000.00.17.00.1), a qual classifica como assédio moral as perseguições sofridas por um técnico do setor de publicidade e propaganda. Na petição inicial, o reclamante pede, dentre outros, indenização por danos morais em virtude de "perseguições de natureza ideológica". Do exame do acórdão, depreende-se que o reclamante foi preterido numa promoção, reagiu e se desentendeu com um colega, que recebeu a promoção, e o gerente. Desde então, o gerente anunciou, em reunião para os demais empregados, que o reclamante estava proibido de entrar na biblioteca (local onde realizava suas atividades); e, por cerca de dois  meses, ficou o reclamante sem receber trabalho, obrigado a ocupar uma escada interna do prédio, local "carinhosamente" denominado pelos colegas de "gabinete do Harold" - prenome do reclamante - segundo  uma testemunha.
Uma segunda preocupação que partilhamos com os estudiosos desse fenômeno é precisar com exatidão o que é e o que não é "mobbing". Para Heinz Leymann - estudioso alemão, radicado na Suécia, que identificou como doença profissional enfermidades de natureza psicossomáticas, derivadas do "mobbing" - para que um quadro de violência psicológica possa ser caracterizado como de assédio moral, é necessário que tenha duração mínima de 6 (seis) meses e que os ataques se repitam numa freqüência média de duas vezes na semana. Muito embora tenha sido criticado pelo rigorismo, o parâmetro traçado por Leymann é seguido mundo afora pela grande maioria dos especialistas no fenômeno.
"Mobbing" não é uma ação singular, também não é um conflito generalizado. O terror psicológico é uma estratégia, uma ação sistemática, estruturada, repetida e duradoura. O "mobbing" não é um conflito furioso ocasional entre subordinado e superior hierárquico, uma transferência do empregado de um local de trabalho para outro, ainda que desvantajosa e prejudicial; não é a diminuição ou o excesso exagerado de trabalho; não é uma ordem de prestação de serviço humilhante; não é a determinação de prestar serviço em local incômodo e ergonomicamente desaconselhável; não é a anotação desabonadora na Carteira de Trabalho - acusando o empregado de falta grave, mesmo que se  registre a suposta falta.
Também não se pode caracterizar como assédio moral ou terror psicológico o conflito generalizado e continuado dentro de um ambiente de trabalho doentio, dominado pelo estresse, onde impera o autoritarismo e a inobservância de normas trabalhistas e de segurança elementares. Sem dúvida que fatores organizativos têm um papel preponderante na saúde psicológica do ambiente de trabalho, e já está cientificamente provado que um ambiente de trabalho onde reina a denominada "administração por estresse" é laboratório de práticas eticamente nefastas, criadoras  de bodes expiatórios para desafogo das frustrações coletivas e individuais (veja-se detida análise sobre o tema no capítulo XI da obra citada). Além disso, há o "mobbing" estratégico que parte da direção da empresa e visa excluir um determinado empregado que por algum motivo se tornou incômodo para a organização.
Em 1993, Heinz Leymann definiu o fenômeno como um conflito cuja ação  visa à manipulação da pessoa  no sentido não amigável; essa ação pode ser analisada em três grupos de comportamentos: Um grupo de ações se desenvolve sobre a comunicação com a pessoa atacada, tendendo a levar a pessoa ao absurdo ou à interrupção da comunicação. Com ele ou ela se grita, se reprova, se critica continuamente o trabalho, a sua vida privada, se faz terrorismo no telefone, não lhe é dirigida mais a palavra, se rejeita o contato, se faz de conta que a pessoa não existe, se murmura em sua presença, etc...
Outro grupo de comportamentos se assenta sobre a reputação da pessoa.  As táticas utilizadas vão das piadinhas, mentiras, ofensas, ridicularização de um defeito físico, derrisão pública, por exemplo, de suas opiniões ou idéias, humilhação geral.
Enfim, as ações do terceiro grupo tendem a manipular a dignidade profissional da pessoa, por exemplo, como que para puní-la, não lhe é dado  trabalho ou lhe dão trabalho sem sentido, ou humilhante, ou muito perigoso, ou, ainda, são estabelecidas metas de alcance duvidoso, levando a vítima a culpar-se e acreditar-se incapaz para o trabalho. Somente se estas ações são realizadas de propósito, freqüentemente e por muito  tempo, podem ser chamadas de "mobbing".
A Lei Francesa (2000-73) sobre a modernização do trabalho, aprovada em 17 de janeiro de 2001, define o assédio moral nos seguintes termos: Nenhum trabalhador deve sofrer atos repetidos de assédio moral que tenham por objeto ou por efeito a degradação das condições de trabalho, suscetíveis de lesar os direitos e a dignidade do trabalhador, de alterar sua saúde física ou mental e comprometa o seu desempenho profissional. Nenhum trabalhador pode ser sancionado, licenciado ou ser objeto de medidas discriminatórias, diretas ou indiretas, em particular no modo da remuneração, da formação, da reclassificação, da qualificação e classificação de promoção profissional, de modificação ou renovação do contrato, por ter sofrido ou rejeitado de sofrer os comportamentos definidos no parágrafo precedente ou por haver testemunhado sobre referidos comportamentos. Veja-se mais detidamente outras definições no direito comparado no capítulo X - "Tutela do Mobbing no Direito Comparado".
4.  COMO SE DEFENDER DO "MOBBING"
A primeira e mais decisiva forma de defesa é a prevenção. Muito embora não se desprezem as causas psicológicas do fenômeno, os especialistas advertem sobre a  necessidade de se aprofundar o conhecimento em torno das causas sociais da violência psicológica no trabalho. O marketing social desenvolvido através da ação sindical organizada, aliado à difusão de informações junto aos trabalhadores acerca da dinâmica, métodos empregados pelos perversos, é, sem dúvida, uma das melhores armas no combate ao assédio moral.
Por outro lado, no âmbito individual, é aconselhável  desenvolver estratégias de defesa, seja anotando e datando os fatos, seja buscando aliados que, no futuro, poderão servir como testemunhas num possível processo judicial. Já a prevenção promovida pela empresa é certamente a mais eficaz forma de combate dessa violência tanto silenciosa quanto destruidora, todavia apenas razões de natureza econômica não são suficientes para convencer organizações a ensarilhar armas contra o assédio moral (consultar o capítulo que trata da prevenção na obra citada).
Sob o aspecto da proteção jurídica, é preciso evidenciar para vítimas e agressores os instrumentos jurídicos de proteção e punição para coibir essa espécie de violência. No Brasil existem alguns projetos de lei no plano federal visando punir o "mobbing" no serviço público e tipificar a conduta criminosa. Além disso, algumas capitais importantes como São Paulo, Rio de Janeiro e algumas cidades do interior já aprovaram leis prevendo a coibição dessa violência no âmbito da administração pública municipal.
A primeira tentativa de dar uma definição jurídica para o assédio moral partiu de uma Comissão da União Européia, segundo a qual "mobbing" é uma situação na qual a pessoa vem maltratada ou perseguida em circunstância ligada ao trabalho, surgindo uma explícita ou implícita ameaça a sua segurança e saúde. Países como Noruega, Suécia, Austrália e França já possuem legislação específica contra o "mobbing". Em diversos outros países membros da União Européia tramitam, nos parlamentos, projetos de lei no sentido de coibir o terrorismo psicológico no trabalho, a exemplo do que se verifica no Parlamento português, onde a ementa do projeto se refere ao terrorismo psicológico ou assédio moral, expressão, aliás por nós adotada para intitular nosso estudo (v. capítulo X do livro referido).
A lei recém-aprovada na França, conforme inteligente análise da jurista italiana Luiza Lerda (veja-se referência na obra em resenha), acolheu uma noção bastante ampla do conceito de "mobbing" no local de trabalho, considerando tanto o de natureza vertical como horizontal. De um modo geral, pode-se afirmar que essa norma tem por objetivo precípuo evitar que, através do assédio moral, o trabalhador seja ferido na sua dignidade profissional e sucessivamente se afaste voluntariamente do trabalho. Adotou-se a nulidade como remédio geral para todo e qualquer ato de modificação   in peius das condições de trabalho (quarentena, redução direta ou indireta do salário, rebaixamento de função, modificação do posto de trabalho com prejuízo, transferência); igualmente nos casos de o contrato sofrer solução de continuidade (dispensa, demissão ou licenciamento). O mesmo se aplica para todos os casos de punição disciplinar que tenham alguma conexão com a prática de "mobbing".
A pretensão do legislador francês é zerar todas aquelas condições negativas que se fazem acompanhar do terror psicológico e que fragilizam e dificultam a defesa da vítima. Além disso, a tutela é reforçada diante da expressa previsão da inversão do ônus da prova, transferindo para o agressor a incumbência de demonstrar a inexistência do assédio quando o trabalhador tenha apresentado elementos suficientes para deixar presumir a existência do assédio e de um dano.
Na Itália, embora ainda não haja uma legislação específica, a jurisprudência de primeiro grau proferiu sentença reconhecendo dois casos de "mobbing" (veja-se íntegra da primeira sentença do Tribunal do Trabalho de Turim no livro Terror Psicológico no Trabalho). No julgamento de primeiro grau do caso de uma senhora vítima de assédio moral por parte de um chefe de setor, diante da prova inequívoca do dano, da autoria e do nexo de causalidade entre o fato e os distúrbios psicossomáticos alegados pela vítima, o juiz, após uma exaustiva instrução processual, concluiu pela aplicação do art. 2.087 do Código Civil, que prevê a responsabilidade do empregador para com a proteção da integridade física, psíquica e moral do empregado.
5.  CONCLUSÃO
No estudo que realizamos, constatamos que a violência psicológica não se aplica apenas aos empregados, mas igualmente se verifica durante os testes de seleção para o emprego. Diante da avalanche de casos e a violência do fenômeno, a primeira indagação que salta é se o nosso ordenamento jurídico, visto no seu conjunto, dispõe de normas capazes de coibir o assédio moral, e se, em virtude da inexistência de norma geral de proteção ao emprego, a legislação trabalhista em vigor protege a vítima, ou se eficazmente aplicadas as atuais disposições da CLT, estas poderão redundar em mais uma punição para o trabalhador. E, afinal, na era da flexibilização das relações de trabalho, é producente pensar em outras medidas que poderão ser adotadas no sentido de evitar o fenômeno "mobbing". Ou podemos deixar a decisão de punir ou não essa prática, restrita à vontade das organizações? Essas e outras  questões, na obra que estamos lançando.=V

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[WW, II ] A TUMBA DO SEXTO EXÉRCITO ALEMÃO [HER] / A MADONA DE STALINGRADO.


StalingradoNa madrugada do dia 21 de agosto de 1942, companhias de infantaria do General von Seydlitz cruzaram o rio Don em botes infláveis. Eles rapidamente estabeleceram uma cabeça de ponte próximo a vila de Luchinsky. Mais e mais companhias lutavam bravamente contra o curso d´água para juntarem-se à cabeça de ponte estabelecida. A algumas milhas, seguindo o curso do rio, um batalhão inteiro cruzou o Don em pequenos intervalos, gastando menos do que 70 minutos para atravessá-lo.
Uma vez que as cabeças de ponte estavam seguras, batalhões de pioneiros começaram a trabalhar em pontões para que tanques e outros veículos do XVI Corpo de Panzers do General von Withersheim pudessem cruzá-lo. Os engenheiros alemães, intrigados pelos misteriosos contrastes do "quieto Don", referiam-se ao rio como "o curso". Um grande número de soldados e oficiais do 6º Exército se encantaram com as belezas do "país cossaco do Don" e sonhavam em ter uma fazenda naquele local uma vez que a guerra tivesse sido vencida.
Logo após o meio-dia de 22 de agosto, a ponte estava pronta e a 16ª Divisão Panzer do General Hube começou a travessia. Os tanques, meia-lagartas, canhões auto-propelidos, veículos de reconhecimento e caminhões vagavam lentamente pelo pontão, cruzando o rio.
Naquela noite, assim que a lua apareceu, os aviões russos começaram sua corridas de bombardeio. Veículos foram atingidos em ambas as margens e ardiam em chamas, iluminando a área do alvo, no entanto as bombas ainda não tinham acertado seu alvo, o pontão. O quartel-general divisional de Hube recebeu relatos de escaramuças em torno dos extremos da cabeça de ponte. De tempos em tempos o ruído inconfundível dos foguetes Katyusha dos "orgãos de Stalin" podia ser ouvido. O som era desmoralizante, mas as baterias estavam disparando em tiros cegos, sem precisar alvos. Atrás da linha de infantaria as últimas divisões panzer faziam as revisões finais em seus veículos ou aproveitavam o tempo para tentar descansar. Exatamente às 4:30, enquanto o dia raiava no leste, o 2º Regimento Panzer do Conde von Strachwitz, reforçado com companhias de Panzergrenadieres moveram-se adiante, em direção ao Volga. As tripulações de tanques, conscientes do evento histórico do qual participavam, consideravam este momento como extremamente "excitante".
A estepe entre o Don e o Volga, cuja terra era "dura como pedra" no verão, permitia um avanço bastante veloz. Comandantes de tanques erguidos sobre suas torretas, usando óculos contra as nuvens de poeira, tinham que se manter atentos, sempre em busca de alguma balka escondida ou alguma cratera que não fosse visível aos motoristas. Nas primeiras doze milhas de avanço, as tripulações dos panzers encontraram muitos poucos inimigos. A monótona paisagem do terreno plano, coberta de relva ressequida, parecia quase completamente vazia.
O sol ainda não havia atingido a posição mais alta no céu quando o General Hube, depois de uma série de transmissões de rádio, repentinamente decidiu parar o avanço de seu QG. Os motores foram desligados para conservar combustível. Enquanto as tripulações esperavam no avassalador calor de verão, o ruído característico do motor de uma pequena aeronave de reconhecimento pôde ser ouvido. Um avião Fieseler Storch foi distingüido, ele circulou a coluna blindada, aproximou-se e aterrou próximo aos tanques. O piloto saltou e acenou, era o General von Richtoffen, o novo Comandante-chefe da Quarta Luftflotte. Ele mal escondia o seu mau-humor e impaciência com o exército: "O General Paulus está preocupado com seu flanco esquerdo", tinha ele anotado em seu diário somente três dias antes. Ele também estava descontente quando foi informado que a principal prioridade da Luftwaffe era "destruir tanques!". Para os pilotos de caça, ataques ao solo eram uma tarefa menor e desnecessariamente perigosa; ela não requeria a habilidade do combate aéreo e ainda corria-se o risco de receber um tiro de sorte do solo, quando os soldados de infantaria russos estendiam-se ao chão, de barriga para cima, e atiravam com seus rifles e pistolas.
Richthofen, sem camisa e com seu quepe entortado para trás, expondo parte de sua cabeça raspada, cumprimentou Hube secamente. Nas ordens do quartel general do Führer, todos os recursos da Quarta Luftflotte deviam ser direcionados para o front de Stalingrado, "para aniquilar os russos completamente". "Use bem o dia de hoje", ele disse para Hube, "Você terá suporte aéreo de 1.200 aeronaves. Amanhã eu não posso prometê-lo nenhuma.".
Durante a tarde as guarnições dos panzers olhavam para cima, recortados contra a luz do sol eles viam levas e levas de bombardeiros Junkers 88 e Heinkel 111, bem como esquadrões de Stukas em "grupos compactamente alinhados", voando em direção à Stalingrado. Uma massa de sombras passava pela estepe. No seu retorno, os pilotos de Stuka "acionavam suas sirenes" para congratular as tropas em avanço. As guarnições acenavam de volta exultantemente, na distância eles já podiam distinguir as colunas de fumaça exalando da cidade, sobre a qual o quartel-general do Sexto Exército, em um excesso propangandístico, descreveu como "Stalingrado, a cidade de Stalin, o berço da revolução vermelha.".
Para os cidadãos de Stalingrado, o domingo, dia 23 de agosto, foi "um dia que nunca será esquecido". A cidade modelo da qual eles tanto se orgulhavam, com seus jardins ao longo da alta margem oeste do rio Volga e os grandes prédios de apartamentos brancos que davam ao lugar sua aparência moderna, quase cubista, tornou-se um inferno.
Os auto-falantes nas ruas, agregados aos postes de energia, começaram a repetir: "Camaradas, está ocorrendo um ataque aéreo na cidade. Atenção, camaradas, um ataque aéreo...". A população tinha ouvido tantos avisos falsos de ataque, entoados na mesma voz monótona, que a princípio muitos poucos levaram a sério. Somente depois que as baterias anti-aéreas abriram fogo, a população começou a correr em busca de proteção. Aqueles que se divertiam no Mamaev Kurgan, o grande parque e cerimonial Tártaro que dominava o centro da cidade, eram os mais expostos. Nas longas avenidas que corriam paralelas ao Volga, a massa de refugiados dos distritos adjacentes encontravam pouca proteção além das trincheiras, cavadas pelos comitês populares nos jardins e terrenos, para os que não podiam alcançar seus porões a tempo.
As aeronaves de Richtoffen começaram as suas corridas de bombardeiro em segundos, atacando "não somente instalações industriais, mas todos os prédios", disse um estudante presente naquele dia. As bombas de alto explosivo oscilavam candidamente enquanto eram despejadas em seqüência pelos Heinkels. As descrições das cenas na cidade tornam difícil imaginar que alguém pudesse ter sobrevivido não estando em um porão ou abrigo. Bombas incendiárias caíam sobre casas de madeira na parte sudoeste da cidade, queimando-as até as cinzas, mas nas ruínas fumegantes as chaminés de tijolo vermelho continuavam de pé, em colunas, tal qual um cemitério surrealista. Próximo às margens do grande rio, as estruturas dos grandes prédios brancos continuavam de pé, até mesmo quando atingidos, mas a maioria dos pisos internos cedeu. Muitos outros prédios foram completamente esmagados, ou simplesmente desintegraram-se. Mães embalavam bebês mortos, e as crianças procuravam suas mães, soterradas nos desmoronamentos. Centenas de famílias morreram, enterradas vivas nos escombros.
Um piloto alemão, após seu avião ser atingido por uma das baterias anti-aéreas operadas por mulheres, conseguiu saltar, mas quando seu pára-quedas abriu, ele desceu diretamente sobre um incêndio. Aqueles cidadãos de Stalingrado que viram o seu fim estavam tão chocados com a carnificina em torno que até mesmo a satisfação da justiça poética estava além deles.
Os grandes tanques de reserva de petróleo nas margens do Volga também foram atingidos. Uma gigantesca bola de chamas avermelhadas subiu aproximadamente 1.500 pés no ar e, nos dias seguintes, uma grande coluna de fumaça negra podia ser vista de mais de 200 milhas de distância. Manchas de óleo em chamas espalhavam-se pela superfície do rio. As bombas destruíram o sistema telefônico, os sistemas de abastecimento de água e o principal hospital da cidade foi atingido por uma seqüência acurada de bombas de concussão, as janelas explodiram, matando os pacientes nas suas camas. Os ataques no hospital foram tão aterrorizantes que os médicos e enfermeiras fugiram, abandonando seus pacientes, alguns dos quais foram deixados por até cinco dias, sem comida ou cuidados.
O assalto aéreo a Stalingrado, o mais concentrado no Ostfront, representou o ápice natural da carreira de Richtofen desde Guérnica, na guerra civil espanhola. As aeronaves da Quarta Força Aérea voaram um total de 1.600 missões naquele dia e despejaram mais de 1.000 toneladas de bombas para a perda de somente três máquinas. De acordo com algumas estimativas, a população de Stalingrado era de aproximadamente 600.000 pessoas, destas, 40.000 foram mortas na primeira semana de bombardeios.
A razão pela qual tantos cidadãos e refugiados permaneceram no lado oeste da cidade era típica do regime comunista: a NKVD tinha o comando de todas as embracações fluviais, designando muitos poucos barcos para o transporte da população civil, então Stalin, decidindo que o pânico não devia ser perpetuado, recusou-se a permitir que os habitantes de Stalingrado fossem evacuados para a outra margem do rio. Isto, ele pensava, forçaria as tropas, especialmente a milícia local, a defender a cidade mais desesperadamente. "Ninguém se importava com os seres humanos," observou um dos meninos presos nos escombros, "nós todos éramos somente material para a carnificina.".
Enquanto os bombardeiros de Richtofen atacavam Stalingrado, a ponta de lança da 16ª Divisão Panzer avançava quase impunemente através da estepe, por aproximadamente vinte e cinco milhas. "Em torno de Gumrak, a resistência do inimigo tornou-se mais forte e as armas anti-aéreas começaram a atirar nos nossos veículos blindados da extremidade noroeste de Stalingrado", conforme os históricos da divisão. A resistência vinha das baterias operadas por jovens voluntárias, mal saídas da escola secundária. Poucas tinham usado as armas antes, dada a escassez de munição, e nenhuma delas tinha sido treinada para atingir alvos no chão. Elas tinham trocado de alvos, dos bombardeiros sobre a cidade para os tanques que começavam a aparecer, os quais as tripulações "pareciam pensar que estavam em uma parada de domingo". As jovens guarnições furiosamente alteravam as derivas para zero graus de elevação - as armas de 37 mm soviéticas eram cópias rudes dos Bofors - e miravam diretamente para os veículos blindados que encabeçavam o assalto.
As divisões Panzer rapidamente recuperaram-se da surpresa inicial e começaram a atacar algumas das baterias. Os Stukas prontamente chegaram para lidar com as demais. Esta batalha desigual foi observada com angústia pelo capitão Sarkisyan, o comandante de um batalhão de morteiros pesados soviético, que depois relatou o que viu para o escritor Vasily Grossman. Sempre que as armas anti-aéreas silenciavam, Sarkisyam exclamava: "Oh, elas estão acabadas agora! Elas foram massacradas!". Mas toda a vez, depois de uma breve pausa, as armas voltavam a atirar. "Isto", declarou Grossman, "foi a primeira página da defesa de Stalingrado.".
A ponta de lança germânica diminui sua velocidade pelas próximas poucas milhas. Mais ou menos às quatro da tarde eles alcaçaram Rynok, ao norte de Stalingrado, e lá "os soldados da 16ª Divisão Panzer vislumbraram o Volga, correndo tranqüilamente perante seus olhos". Eles mal podiam acreditar: "Nós começamos de manhã cedo no Don," recordou um dos comandantes de companhia de Strachwitz, "e então agora nós estamos no Volga!". Alguém no batalhão sacou uma câmera e começou a tirar fotografias de todos, sentados na traseira dos seus veículos, olhando a imensidão além com binóculos. Estas imagens foram incluídas nos históricos do Sexto Exército com a menção: "O Volga foi atingido!". A câmera, virando para o sul, captou outras imagens, uma delas mostrava uma coluna de fumaça, dos ataques da Luftwaffe à cidade, e foi arquivada como: "vista da silhueta de Stalingrado em chamas".
Logo após sua chegada, o ás da aviação Kurt Ebener e uma companhia da esquadrilha de caças "Udet" passou sobre o Volga, exatamente a norte de Stalingrado. Os pilotos viram os tanques e a infantaria alemã abaixo e "um sentimento de felicidade incontida, êxito e alívio pelos camaradas no chão" inspirou uma série de rolagens e outras acrobacias aéreas em celebração.
Como outros comandantes de Panzers, o Capitão Freytag-Loringhoven ficou de pé, na torreta do seu tanque, para olhar de binóculos além do rio, para as grandes vastidões. A visão era excelente da margem oeste, mais alta. "Nós olhamos para a imensa, gigantesca, estepe da Ásia e foi incomparável," ele lembra-se, "Mas eu não podia perder muito tempo pensando sobre isso, pois tivemos que fazer um ataque contra outra bateria anti-aérea que começou a atirar em nossa direção.".
As guarnições de anti-aérea eram impressionantemente resistentes. De acordo com o Capitão Sarkisyan, "as garotas se recusavam a descer para seus bunkers". É dito sobre uma delas, chamada Masha, que "permaneceu em seu posto por quatro dias sem ser rendida", e foi creditada com nove tiros certeiros. Mesmo que isto seja um exagero, como muitas outras histórias na época, os relatos da 16ª Divisão Panzer não deixam dúvidas sobre sua bravura: "Desde que chegamos até de noite, nós tivemos que lutar, tiro a tiro, contra trinta e sete posições de anti-aérea do inimigo, todas elas guarnecidas por teimosas mulheres guerreiras, até que todas elas foram destruídas.".
As guarnições dos tanques alemães ficaram horrorizadas quando descobriram que estavam atirando contra mulheres. Os russos consideraram este preconceito curiosamente ilógico, levando em conta que os bombardeiros de Richtofen tinham matado milhares de mulheres e crianças em Stalingrado naquela mesma tarde. Os oficiais da Wermacht em Stalingrado não sofreram de ilusões cavalheirescas durante muito tempo: "É completamente equivocado descrever as russas combatentes como "soldados de saia". As russas estão plenamente preparadas para quaisquer tarefas de combate e para ocupar qualquer posto militar. Os soldados soviéticos tratam estas mulheres com grande respeito.", como escreveu um oficial naqueles dias.
A primeira fase da carnificina germânica começou na manhã do dia 13 de setembro de 1942, às 4:45 AM, hora local ou 6:45 AM, hora de Berlim (Hitler insistia que a Wermacht na Rússia operasse no mesmo horário local do seu quartel-general Wolfsschanze na Prússia Oriental). No flanco esquerdo do LI Corpo de Exércitos, a 295ª Divisão de Infantaria dirigiu-se para o Mamaev Kurgan e na direita, a 76ª e a 77ª Divisões de Infantaria atacaram em direção à principal estação ferroviária e a estação central de desembarque do Volga. Os oficiais da 295ª haviam incitado seus homens com a idéia de que eles chegariam ao Volga em apenas um impulso.
A artilharia e os assaltos aéreos às posições soviéticas durante o dia anterior tinham sido especialmente intensas. "Uma massa de Stukas picou sobre nós", escreveu um recruta da 389ª Divisão de Infantaria Russa, "e depois do seu ataque, mal podíamos acreditar que até mesmo um rato pudesse estar vivo.". O bombardeio continuou com a mesma violência durante todo o dia 13 de setembro. Do seu posto de comando no Mamaev Kurgan, Chuikov observava através do periscópio de seu bunker. Uma nuvem de poeira das construções destruídas tingia o céu de marrom. O chão vibrava continuamente devido às explosões. O staff de oficiais e os estafetas estavam revestidos de poeira. Os obuses e as bombas também cortavam, com mórbida freqüência, os cabos de telefonia. Técnicos eram enviados continuamente para descobrir onde os fios haviam sido partidos e consertá-los, embora fosse pequena sua chance de sobrevivência fora do abrigo. Tão frequentes eram as quebras que até mesmo as jovens telefonistas tinham que se aventurar do lado de fora para tentar consertá-los. Chuikov conseguiu contactar Yeremenko somente uma vez durante o dia e, pelo final da tarde, tinha perdido completamente o contato com suas divisões da margem Oeste do Rio, forçando-o a recorrer aos estafetas, cuja chance de sobrevivência, atravessando a cidade arruinada, era ainda menor do que a dos técnicos de telefonia, que morreram aos montes tentando reestabelecer as linhas.
Embora os alemães fizessem progressos na parte ocidental da cidade, capturando a pequena base aérea e os quartéis, suas tentaivas de penetrar o bolsão de resistência ao norte fracassaram. O combate era muito mais duro do que os oficiais esperavam. Muitos já temiam ter que passar todo o inverno em Stalingrado.
Chuikov decidiu mover seu QG, durante aquela noite, para os túneis onde estava anteriormente instalado, que saíam do Desfiladeiro da Tsarita e iam até a Pushkiskaya Ulitsa, uma rua próxima à margem do Volga. A linha do Desfiladeiro da Tasarita tinha sido a escolha óbvia para o ponto de junção das forças de Paulus e Hoth. Enquanto as divisões de Seydlitz, ao norte, avançavam em direção ao Mamaev Kurgan e a estação de trem, a 24ª e 14ª Divisões Panzer de Hoth e a 94ª Divisão de Infantaria, ao sul, avançavam, prontas para dominar o elevador de grãos de concreto que dominava a silhueta da cidade.
As novidades da 71ª Divisão de Infantaria, que avançava ao centro de Stalingrado, exatamente ao norte do Tsarita, foram saudadas com grande exultação no quartel-general do Führer. A mesma informação chegou ao Kremlin durante a tarde. Stalin estava discutindo a possibilidade de uma grande contra-ofensiva estratégica em Stalingrado com Zhukov e Vasilevsky, quando Poskrebychev, o chefe de seu secretariado, entrou para informar que Yeremenko estava ao telefone. Depois de falar com ele, Stalin contou aos seus dois generais as notícias, complementando: "Yeremenko afirma que o inimigo está trazendo suas forças blindadas para próximo da cidade. Ele espera um ataque para amanhã", virando-se para Vasilevsky, continuou: "Envie ordens imediatas para a 13ª Divisão de Guardas de Rodimtsev para cruzar o Volga e veja o que mais você pode mandar para lá.". Uma hora depois, Zhukov estava em um avião voltando para Stalingrado.
Nas primeiras horas de 14 de setembro, Chuikov e seu staff de oficiais dirigiram-se para o sul, passando pela arruinada cidade, para o bunker de Tsarita em dois veículos. As ruas, coalhadas de destroços, mal permitiam o avanço dos veículos, e sua curta viagem era freqüentemente interrompida por bombardeios e barreiras de concreto. Chuikov estava muito impaciente, pois havia ordenado um contra-ataque e tinha que estar pronto para avaliar os resultados no novo quartel-general. Suas tropas surpreenderam os alemães em vários lugares, mas eles foram forçados a recuar assim que os esquadrões de Stuka da Luftwaffe começaram a agir. A única notícia encorajadora deste dia foi que a 13ª Divisão de Guardas cruzaria o rio naquela mesma noite, mas os avanços inimigos daquele dia foram tão fortes e rápidos, que muitos começaram a duvidar que as tropas de Rodimtsev fossem conseguir desembarcar na margem ocidental do Volga.
A 259ª Divisão de Infantaria lutou em caminho da mais distante encosta do Mamaev Kurgan, mas a ameaça imediata à sobrevivência de Stalingrado vinha da sua parte sul: "Ambas as divisões [71ª e 76ª] conseguiram avançar para a estaçaõ central ao meio-dia, em uma cunha ofensiva. Às 3:15 PM, com as estações de tratamento de água tomadas, eles alacançaram a margem do Volga!". A estação principal mudou de mãos três vezes em apenas duas horas durante a manhã e foi retomada pelo Batalhão de Rifles do NKVD (a milícia partidária comunista) ao fim da tarde.
O uniforme do General Aleksandr Rodimtsev estava imundo no momento em que ele atingiu o quartel-general de Chuikov, durante o começo daquela tarde. Desde o momento em que ele pôs os pés na margem oeste do Volga, os constantes ataques aéreos tinham-no forçado a esconder-se nas crateras para se abrigar. Bem-humorado, ainda que com um intenso olhar de estudante compenetrado, Rodimtsev parecia muito mais um intelectual de Moscou do que um General e herói da União Soviética. Na guerra civil espanhola, servindo sob o codinome "Pablito", ele tinha sido um dos conselheiros chave na batalha de Guadalajara em 1937, quando os republicanos espanhóis puseram o corpo expedicionário de Mussolini em fuga. Ele era um herói para seus homens, cujo maior medo, caso feridos, consistia em serem transferidos para outra formação quando capacitados a lutar novamente.
Chuikov expôs claramente a Rodimtsev o perigo das posições russas. Ele tinha acabado de mandar ordens para a sua última reserva engajar: os dezenove tanques de uma brigada blindada. Ele advertiu Rodimtsev para deixar todo o equipamento pesado para trás, seus homens precisariam somente de armas leves, metralhadoras, rifles anti-tanque e quantas granadas pudessem carregar.
Chuikov convocou o Coronel A. A. Sarayev, o comandante da 10ª Divisão de Rifles do NKVD e também o comandante de guarnicção de Stalingrado. Sarayev, que tinha estado em Stalingrado desde julho, com cinco regimentos de tropas do NKVD (aproximadamente 7.500 homens), tinha continuamente aumentado seus efetivos. Ele tinha criado um exército particular de mais de 15.000 homens em ambas as margens do Volga. O controle do tráfego do rio e das travessias também estava em suas mãos. Chuikov tinha pouco a perder neste momento, ameaçado de ter seu quartel-general envolvido caso Sarayev não aceitasse suas ordens. Embora tivesse ameaçado "quebrar a espinha" de um comandante, no Cáucaso, que somente sugeriu que as tropas do NKVD deveriam passar para o controle do exército, Sarayev percebeu que, neste caso, seria mais sábio obedecer, especialmente sabendo que os ventos do Kremlin estavam começando a soprar em favor do exército.
Os batalhões de milicianos sob seu comando receberam ordens de ocupar prédios chave e mantê-los até o último homem. Um batalhão regular do NKVD foi enviado para reforçar uma das encosta do Mamaev Kurgan, enquanto dois regimentos de rifles deveriam bloquear o avanço inimigo em direção ao Volga, afinal, os Guardas de Rodimtsev tinham que desembarcar, de uma maneira ou outra. As tropas NKVD lutaram bravamente, sofrendo baixas pesadas, e a divisão posteriormente receberia a Ordem de Lenin e o título de "Stalingradsky". Sarayev permanceu em seu posto durante toda a luta, mas sua substituição já estava marcada. Seu sucessor como comandante das tropas do NKVD, o Major-General Rogatin, tomou lugar na segunda semana de outubro, com um novo quartel-general estabelecido na margem oriental.
A Stavka ordenou à 13ª Divisão de Guardas seguir para Stalingrado três dias antes. Embora fosse composta por mais de 10.000 homens, um décimo deles não tinham armas. A divisão tinha sido dispersa para evitar sua localização pelo reconhecimento aéreo Alemão, pelos bosques e matagais em torno da Krasnaya Sloboda, como a maioria das divisões de reserva russas. Rodimtsev, pressionado e sabendo da urgência da situação da cidade, tinha incitado seus comandantes durante todo o trajeto, desde as imediações de Moscou. Os radiadores dos caminhões ferviam, os camelos de transporte de material empacavam e a poeira levantada pelos veículos era tão intensa que "os passáros que se empoleiravam nos postes de telegrafia ficavam cinzas.". Em diversas ocasiões as tropas haviam se dispersado quando os Messerschmitts de nariz amarelo mergulhavam em voô rasante para metralhar as colunas.
Conforme se aproximavam do Volga, a vegetação da estepe se esparsava e apareciam as pequenas árvores que anunciavam a proximidade da água. Os soldados já podiam visualizar as colunas de fumaça negra que se elevavam da cidade em frente. Este era o primeiro sinal do tipo de batalha que aguardava por eles na margem oposta do grande rio.
Na margem oriental do rio, eles eram rapidamente supridos de munições, granadas e rações - pão, salsichas e também açucar para infusões. Rodimtsev, após seu encontro com Chuikov, decidiu não esperar até que a escuridão da noite fosse completa. A primeira leva de guardas foi transportada para a frente no crepúsculo, em uma mistura de canhoneiras da flotilha do Volga e embarcações civis: lanchas, traineiras, barcos de pesca e até mesmo botes a remo. Aqueles deixados na margem leste a aguardar sua vez tentavam calcular quanto tempo teriam que esperar até que as embarcações retornassem, para que pudessem ser transportados para a outra margem.
Os distantes tiros dos rifles e as explosões dos obuses faziam um ruído oco durante a travessia. Conforme eles se aproximavam, a artilharia germânica, morteiros e quaisquer metralhadoras próximas o suficiente da margem, mudavam de alvos. Colunas de água eram erguidas no meio do curso, encharcando os ocupantes das embarcações. As silhuetas prateadas dos peixes mortos começavam a ocupar toda a superfície das águas; uma das canhoneiras recebeu um impacto direto, e vinte membros de um destacamento foram mortos instantaneamente. Alguns homens fixavam a visão nas águas, evitando olhar para a margem, como alpinistas que recusam-se a olhar para baixo durante a escalada. Outros, contudo, permanceiam olhando para frente, para os edifícios em chamas na margem oeste, as cabeças, cobertas pelos capacetes, instintivamente encolhidas entre os ombros. Eles estavam sendo enviados para uma verdadeira imagem de inferno. Enquanto escurecia, as gigantescas chamas exibiam as silhuetas dos prédios na margem ocidental e projetavam sombras grotescas sobre as embarcações, fagulhas preenchiam o ar da noite. A margem do rio a frente era "um amontoado de máquinas queimadas e veículos encalhados e destruídos". Enquanto eles se aproximavam da linha costeira, eles podiam sentir o cheiro dos prédios carbonizados e dos cadáveres em decomposição sob os destroços.
As primeiras levas dos Guardas de Rodimtsev não tiveram tempo de fixar baionetas, eles saltavam das embarcações nas águas rasas da borda do rio e escalavam imediatamente o banco de areia da margem. Em alguns lugares, os alemães estavam a menos de 100 jardas de distância. Ninguém precisava lembrar aos homens que quanto mais eles se demorassem, mas chances eles teriam de serem mortos. Para a sorte deles, os alemães não tiveram muito tempo para preparar suas posições e estabelecer linhas de tiro. Um batalhão do 42º Regimento de Guardas juntou-se às tropas do NKVD à esquerda e repeliram os alemães novamente da estação principal. O 39º Regimento de Guardas, à direita, executou uma carga contra um moinho de tijolos vermelhos (mantido, até hoje, cheio de buracos de balas, como um memorial), que foi tomado após um violente combate corpo-a-corpo. Quando a segunda leva desembarcou, os regimentos de reforços avançaram através da linha férrea, que passava próxima a base do Mamaev Kurgan.
A 13ª Divisão de Guardas sofreu perdas da ordem de 30% nas primeiras vinte e quatro horas em que entrou em combate, mas a margem ocidental do rio foi salva. Os poucos sobreviventes (somente 320 homens dos originais 10.000 ainda estavam vivos ao fim da batalha de Stalingrado) juraram que a sua determinação "emanava de Rodimtsev". Seguindo seu exemplo, eles também fizeram a solene promessa: "Não há lugar para nós a leste do Volga.".

As novidades espalharam-se rapidamente pelo lado alemão, com a frase: "Nós estamos cercados!". Aquele domingo de 22 de novembro de 1942, era para os protestantes o dia de culto aos mortos. "Um dia de Totensonntag sombrio", escreveu Kurt Reuber, um padre que servia como médico na 16ª Divisão Panzer, "preocupação, medo e horror.". Muitos, entretanto, não estavam tão preocupados com as primeiras notícias. Cercos haviam acontecido também no inverno anterior, e foram quebrados, mas os oficias mais bem informados, em reflexões posteriores, começaram a perceber que desta vez não havia reservas para resgatá-los rapidamente. "Nós começamos a nos tornar muito mais conscientes do tipo de perigo em que estávamos", relembra Freytag-Loringhoven, "ao sermos isolados tão dentro da Rússia, às portas da Ásia.".
Quarenta milhas a oeste, o último bolsão de resistência romena estava se fragmentando, embora nas primeiras horas daquele dia, o General Lascar houvesse rejeitado as solicitações de rendição do Exército Vermelho. "Nós continuaremos a lutar sem pensar em rendição", ele havia declarado, mas suas tropas, embora resistindo bravamente, estavam sem suprimentos e a munição escasseava.
Ao cruzar o Kalach, os soviéticos imediatamente colocaram o XI Corpo de Exércitos, ao norte, em grande perigo. Ele já estava lutando uma batalha defensiva em três frentes entre incertezas e caos, compostos por rumores. Esta confusão é revelada pelos fragmentos do diário encontrados junto ao corpo de um oficial artilheiro alemão:
"20/11 - ... A ofensiva está terminando??!! Mudar de posição em direção ao norte. Só nos sobrou uma única arma. Todas as outras estão fora de ação.
Sábado, 21/11 - Tanques inimigos de manhã cedo... Mudar de posição para a retaguarda. Os Russos estão muito perto. Nossa infantaria (motociclistas e pioneiros) solicitaram proteção de bateria. Hoje mais romenos passaram sem se deter. Nós estamos recuando, já sob pressão dos russos nos dois lados. Nova posição de fogo. Somente ficamos por um curto intervalo, então outra movimentação para a retaguarda. Construir um bunker.
Domingo, 22/11 - Alarme às 3:30 AM. Recebemos ordem de lutar como infantaria! Os Russos estão chegando. Os romenos se retiram. Nós não podemos manter esta posição com nossos recursos! Esperamos ansiosamente outra ordem de recuar."
Durante esta retirada, as divisões de infantaria alemãs encontraram-se em campo aberto, sujeitas aos ataques de cavalaria, "como se estivéssemos em 1870", recorda um oficial. Seu maior problema era o transporte, principalmente devido à escassez de cavalos. Em alguns casos a solução adotada era brutalmente simples. Os oficiais políticos "recrutavam" prisioneiros russos famintos dos campos de prisioneiros para servir como animais de tração. "Quando a retirada começou em 20 de novembro, nós fomos colocados no lugar de cavalos para rebocar os trenós e carroças carregados com comida e munição. Os prisioneiros que não conseguiam rebocar os veículos tão rapidamente quanto o Feldwebel desejava, eram fuzilados sumariamente. Desta maneira, éramos forçados a puxar as cargas por quatro dias, quase sem descanso. No campo de prisioneiros de Vertyachy, um cercado de arame farpado sem qualquer abrigo, os alemães selecionaram os últimos prisioneiros saudáveis para levá-los com eles, o restante, os mais doentes, eram deixados para trás", segundo o relato de um prisioneiro de guerra russo. "Somente dois dos 98 ainda estavam vivos", quando eles foram descobertos por uma unidade avançada do 65º Exército Russo. Fotógrafos foram convocados para registrar a terrível cena. Impressos foram feitos e o governo soviético acusou formalmente o comando alemão de crimes de guerra.
A 376ª Divisão de Infantaria era a mais exposta aos ataques russos, os quais eram "estonteantemente rápidos", de acordo com seu comandante, General Edler von Daniels. A divisão, reduzida a 4.200 homens, quando cercada na margem oeste do Don, como parte do XI Corpo de Exércitos, recuou para sudeste em 22 de novembro. Dois dias depois, nas primeiras horas da manhã, a divisão cruzou o Don pela ponte de Vertyachy.
O regimento de tanques da 16ª Divisão Panzer havia avançado neste meio tempo, tendo finalmente cruzado o Don na noite de 22 de novembro para dar suporte ao XI Corpo. No caminho, ela conseguiu ainda passar pela oficina de blindados de Peskovatka, onde alguns tanques novos e reparados foram agregados à força. Da sua posição, ao lado sul da cabeça de ponte alemã na curva do Don, o regimento panzer tentou um contra-ataque na direção de Suchanov, em 23 de novembro, sob pesada neblina, mas foi emboscada pela infantaria soviética, em brancas roupas camufladas e armada com rifles antitanque. Face à força do inimigo e sofrendo de uma falta aguda de combustível, a 16ª Divisão Panzer foi repelida. Ela tomou então posição para cobrir a retirada, mas as comunicações eram tão precárias que quase todas as ordens tinham que ser despachadas por estafetas.
Os alemães recuaram para o leste, além do Don, em direção a Stalingrado e para longe do restante da Wermacht, isso foi, de muitas maneiras, pior do que a retirada diante de Moscou, em dezembro passado. Uma neve pesada, dura e seca, cobria a estepe, ferindo seus rostos a despeito do quanto eles levantassem as golas de seus casacos. Apesar das duras lições do inverno passado, muitos soldados ainda não haviam recebido seus uniformes de inverno. As linhas de retirada estavam cobertas de armas descartadas, capacetes e equipamento. A maioria dos soldados romenos tinha pouco mais do que seus uniformes marrons. Eles haviam jogado fora seus capacetes de aço durante a retirada. Os mais afortunados, principalmente oficiais, utilizavam casacos de pele, típicos dos Balcãs. Veículos atingidos e queimados tinham sido empurrados para as margens da estrada ou então lançados de elevados a fim de desobstruir o caminho. Em um determinado momento, os soldados se depararam com uma arma anti-aérea cujo cano havia explodido como uma flor exótica. Próximo às pontes sobre o Don, havia tráfico pesado, com amontoados de caminhões, carros, carroças, canhões puxados por exaustos cavalos e estafetas tentando desesperadamente atravessar. De tempos em tempos havia ondas de pânico, com gritos de "Tanques Russos!". O 16º Corpo de Tanques Soviético tinha rompido as linhas de defesa da 76ª Divisão de Infantaria em direção a Vertyachy, ameaçando isolar as unidades alemãs a oeste do Don.
Uma das cenas mais horríveis da retirada aconteceu próximo à ponte em Akimovsky, com soldados gritando, empurrando-se e até mesmo lutando para atravessar em direção à margem leste. Os mais fracos e feridos eram pisoteados. Por vezes, oficiais ameaçavam-se para permitir aos seus homens atravessar primeiro, Até mesmo os destacamentos de Feldgendarmerie (polícia do exército), armadas com sub-metralhadoras, eram incapazes de restaurar um semblante de ordem. Um número considerável de soldados, para evitar o caos e os congestionamentos, tentaram cruzar o Don, congelado, a pé. O gelo estava duro e grosso próximo às margens, mas no centro existiam diversos pontos frágeis. Aqueles que caíam nas águas estavam condenados, ninguém nem ao menos cogitava a hipótese de ajudá-los. Comparações a Berezina eram o pensamento predominante entre a maioria dos homens.
Ocasionalmente, nestas linhas de retirada, um oficial, tão desarrumado e barbado quanto seus homens, decidia que era seu trabalho evitar a desintegração das unidades. Ele sacava sua pistola para atingir os desertores, forçando os demais homens a manter uma certa ordem. Armas pesadas (de artilharia de campanha) e guarnições também eram improvisadas para formar grupos de combate. A força improvisada, com variados graus de compulsão, tomava então posição e aguardava a aparição dos tanques ou cavalaria soviética na névoa gelada.
Além do Don, na margem leste, cada vila era superlotada por soldados alemães que haviam perdido suas divisões, todos procurando por comida e abrigo contra o terrível frio. Os exaustos e semi-inanes romenos, que já estavam em retirada por quase uma semana, recebiam pouca simpatia dos seus aliados. "Os numerosos romenos eram forçados a procurar alimentos fora das vilas", como observou um oficial. As linhas de retirada passavam diretamente por vários depósitos de suprimentos, mas isto só fazia acentuar o caos. Um oficial panzer relembrou o caos em Peskovatka: "especialmente o comportamento desvairado e nervoso das unidades de flak da Luftwaffe", explodindo, queimando e destruindo armazéns e transportes "de uma maneira totalmente selvagem.". Os soldados que passavam saqueavam qualquer coisa que encontrassem. Das montanhas de enlatados, eles enchiam suas mochilas, sacas e bolsos até que eles parecessem estourar. Ninguém parecia possuir um abridor de latas, então eles usavam suas baionetas, na sua impaciência, geralmente sem saber o que as latas continham. Quando os soldados que ainda não haviam recebido roupas de inverno viam as tropas de apoio queimando casacos (a fim de não permitir a utilização do material pelos russos), eles corriam para as chamas para tentar salvar algo com que se proteger do frio. Neste meio tempo os Feldpostamt (oficiais de correio) queimavam as cartas e pacotes, a maioria destes contendo alimentos enviados pelos familiares para os soldados.
Cenas muito mais terríveis podiam ser encontradas nos hospitais de campanha. "Aqui tudo está faltando. Os que possuem ferimentos leves ou os doentes, têm que arrumar acomodações por si próprios.", como relatado por um oficial executivo do depósito de suprimento de Peskovatka, sofrendo de icterícia, ele havia passado a noite na neve. Outros sofriam muito mais. Havia caminhões estacionados na lama congelada em frente à entrada, ainda cheios de feridos com bandagens na cabeça, torniquetes ou talas. Os motoristas haviam desaparecido e os cadáveres permaneciam no meio dos homens. Ninguém oferecia aos vivos qualquer comida ou bebida, os enfermeiros dentro do hospital estavam extremamente ocupados e os soldados que passavam tendiam a ignorar seus gritos de ajuda. Os charlatões (que se fingiam de feridos) e os feridos capazes de andar que tentavam entrar no hospital, tinham que passar por uma triagem executada por um NCO (oficial executivo) que pegava os casos mais leves e os reorganizava como uma companhia improvisada. Às baixas por congelamento, a não ser que fossem casos realmente graves, eram dados um ungüento e bandagens e então recebiam ordens de voltar ao serviço.
Dentro do hospital, os pacientes permaneciam apáticos. Havia pouco oxigênio no ar pesado e viciado do recinto, mas pelo menos estava quente. Enfermeiros removiam as bandagens de campo, muitas já cobertas de piolhos, limpavam os ferimentos, davam uma injeção contra tétano e os atava novamente. A chance de sobrevivência de um homem dependia essencialmente do tipo e do lugar do ferimento. Os ferimentos perfurantes - por balas, fragmentos de granadas ou perfuração por baioneta - importavam menos do que o lugar onde tinham ocorrido. Os que tinham ferimentos na cabeça ou no estômago eram colocados de lado e deixados para morrer, pois tais operações necessitavam de um time completo de cirurgiões e entre noventa minutos e duas horas para serem executadas, além disso somente um paciente em dois deste tipo sobrevivia. A prioridade era dada aos feridos que conseguiam caminhar, eles podiam ser rapidamente enviados de volta para o front.
As tropas que ainda estavam na margem oeste do Don imaginavam se escapariam. "Direto em direção ao Don", continuavam as anotações no diário do artilheiro alemão, "será que conseguiremos chegar lá? Conseguiremos romper o bolsão? Será que a ponte ainda está de pé? São horas de suspense e ansiedade. As seções de defesa à esquerda e direita entraram em colapso. A estrada é a própria linha de frente. Finalmente o Don! A ponte está intacta! A sensação de alívio é indescritível! Montar posição defensiva no lado oposto, os russos ainda estão avançando. A cavalaria cruzou o rio ao sul de nossa posição."
"Tivemos que destruir um grande número de tanques por que não conseguimos ter acesso ao combustível antes", um soldado relatou posteriormente. A 14ª Divisão Panzer estava restrita a vinte e quatro tanques que podiam ser recuperados, então a guarnição de reparos foi reorganizada como uma companhia de infantaria, armada com carabinas e pistolas. Os oficias Seniores estavam próximos ao desespero. Cedo, na manhã do dia 25 de novembro, o príncipe zu Dohna-Scholobitten, o oficial de inteligência do XIV Corpo Panzer, ouviu uma conversa entre o General Hube e seu chefe de staff, Coronel Thunert, na qual eles usavam frases como "os últimos recursos" e "uma bala na cabeça".
A temperatura caiu drasticamente. A dureza do chão significava uma taxa de baixas muito maior devido ao fogo de morteiros (os fragmentos de gelo matavam os soldados como granadas), mas não era tanto a terra congelada que afetava a retirada, mas sim as águas. O dramático congelamento significava que o Don seria facilmente atravessável pelo inimigo. Durante a noite seguinte, a infantaria soviética pôde cruzar o Don próximo a Peskovatka. De manhã cedo no dia seguinte, os pacientes no hospital de campanha acordaram ao som de morteiros e fogo de metralhadoras. "Todos estavam correndo como galinhas sem cabeça", conforme relatado pelo NCO acometido de icterícia, que havia sobrevivido à noite após descobrir que não havia acomodações para ele. "Na estrada havia filas de veículos, um atrás do outro, enquanto projéteis de morteiro caíam em torno. Às vezes um deles era atingido e ardia em chamas. Os mais gravemente feridos não podiam ser transportados devido à escassez de caminhões. Uma companhia improvisada de soldados de diversas unidades conseguiu repelir os russos antes que eles alcançassem o hospital.".
Naquela tarde, o staff no quartel general do XIV Corpo Panzer recebeu ordens de destruir "todos os itens de equipamento, arquivos e veículos que não fossem absolutamente necessários.". Eles foram empurrados além do Don, em direção a Stalingrado. No dia seguinte, 26 de novembro, a 16ª Divisão Panzer e parte da 44ª Divisão de Infantaria estavam entre as últimas tropas do 6º Exército ainda a oeste do rio Don. Naquela noite eles cruzaram o rio, em Luchinsky para o lado leste (mais próximo a Stalingrado). Para a 16ª Divisão Panzer, este era "a mesma ponte que havíamos cruzado 20 semanas antes, em nosso primeiro ataque contra a cidade do Volga."
Uma companhia de Pazergrenadiers do 64º Regimento Panzer cobriu a retirada sob o comando do Tenente von Mutius. Sua tarefa era defender a ponte, permitindo a passagem de soldados extraviados até às 2:45 AM, quando então a ponte sobre o Don deveria ser destruída. Às 2:50 AM, o jovem e imaturo Mutius admitiu ao seu Primeiro Sargento, Oberfeldwebel Wallrawe, que ele estava "muito orgulhoso" de ser "o último oficial da Wermacht alemã a cruzar aquela ponte." O sargento Wallrawe não emitiu nenhum comentário. Vinte minutos depois, com os panzergrenadiers na margem leste do rio, os engenheiros explodiram a ponte. O Sexto Exército estava então confinado entre o Don e o Volga.
Os comandantes soviéticos não esperavam uma ofensiva de Manstein tão rapidamente. Yeremenko imediatamente temeu pelo 57º Exército, que ocupava o setor sudoeste do Kessel (o bolsão de Stalingrado). Vasilevsky estava no quartel general do 51º Exército, com Khrushchev, no dia 12, quando as notícias do ataque alemão foram recebidas pelo rádio. Ele tentou contactar Stalin em Moscou, mas não foi possível. Não desejando perder um minuto sequer, ele contactou o General Rokossovsky, o comandante do front do Don, e o avisou que ele queria transferir o 2º Exército de Guardas para o comando do front de Stalingrado, na tentativa de bloquear o avanço de Manstein. Rokossovsky protestou veementemente, e, para o desânimo de Vasilevsky, quando ele finalmente conseguiu contactar o Kremlin por telefone, naquela tarde, Stalin zangou-se com o que ele pensou que fosse uma tentativa de forçá-lo a uma decisão precipitada. Ele se recusou a dar uma resposta e obrigou Vasilevsky a passar uma noite em ansiedade.
Neste meio tempo, Yeremenko havia ordenado ao 4º Corpo Mecanizado e ao 13º Corpo Blindado bloquear a cunha de avanço dos panzers germânicos. A 6ª Divisão Panzer movera-se adiante por quase trinta milhas nas primeiras vinte e quatro horas, cruzando o rio Aksay. Finalmente, após as discussões no Kremlin que duraram toda a manhã do dia seguinte, e depois de mais contactos com Vasilevsky, Stalin concordou em transferir o 2º Exército de Guardas nos próximos dois dias.
No segundo dia da ofensiva, a 61ª Divisão Panzer alcançou Verkhne-Kumsky. A chuva caía, prenunciando um pequeno degelo. Nos terrenos elevados em torno da vila começou o que o General Raus descreveu como "uma gigantesca luta greco-romana". Esta furiosa batalha de três dias tornou-se muito custosa. Ela se provou, contudo, um sucesso localizado, possibilitando o avanço dos Tigres e das divisões de Hoth para a linha de Myshkova, uma vez que a 17ª Divisão panzer chegou e Richtofen lançou seu suporte aéreo ao máximo. Mas estes eventos em breve se provariam irrelevantes para a sorte do 6º Exército. Seu destino havia sido decidido a 125 milhas para o Noroeste.
Stalin rapidamente percebeu que Zhukov e Vasilevsky estavam certos. A maneira mais efetiva de esmagar a tentativa de aliviar os exércitos de Paulus era bloquear o avanço de Hoth em Myshkova, enquanto o golpe decisivo seria vibrado em outro lugar. Ele concordou com a idéia de adaptar a Operação Saturno (destruição do Sexto Exército). As ordens foram redigidas no primeiro dia da batalha em Verkhne-Kumsky, instruindo os comandantes de Voronezh e do front Sudoeste a fim de que se preparassem para lançar uma versão corrigida da operação, conhecida como Pequeno Saturno. O plano era avançar pelo flanco do 8º Exército Italiano, na retaguarda do Grupo de Exércitos do Don, ao invés de golpear em Rostov. Seus exércitos deveriam estar aptos a atacar em três dias.
Yeremenko ainda estava preocupado. Com os Panzers de Hoth na linha do rio Myshkova, a 6ª Divisão Panzer estava a menos de 40 milhas da borda do Kessel, e o 2º Exército de Guardas havia sido atrasado pelos nevoeiros, que voltaram a se intensificar, e não estaria em posição de contra-atacar antes de 19 de dezembro. Ele esperava que as forças Panzer do Sexto Exército forçassem uma ação ofensiva em direção ao Sudoeste do bolsão a qualquer momento, mas ele não teria como saber que Hitler houvera recusado a permissão para tal manobra e que os setenta Panzers remanescentes de Paulus tinham combustível para avançar somente umas doze milhas.
O Marechal de Campo von Manstein enviou o Major Eismann, seu oficial de inteligência, para dentro do Kessel, por avião, no dia 19 de dezembro. Sua missão, Manstein proclamou depois, era se aconselhar com Paulus e Schmidt a fim de prepararem-se para a operação Trovoada. Versões e interpretações diferentes do que foi dito neste encontro nunca serão conhecidas. Está claro, contudo, que Manstein ainda evitava assumir a responsabilidade por ter desobedecido a Hitler. Ele não daria a Paulus uma diretriz clara e recusou-se - sem dúvidas por razões de segurança - a voar para dentro do Kessel a fim de discutir a questão face a face com o comandante do Sexto Exército. Além disso, Manstein deveria saber desde o princípio que Paulus, com sua firme crença nas cadeias de comando, nunca tentaria romper o bolsão sem uma ordem formal do alto-comando. Os esforços de Manstein, em suas memórias, para absolvê-lo de qualquer culpa no destino do Sexto Exército são curiosamente exageradas, bem como injustas com Paulus. Parece que ele sofria de uma consciência atormentada, mesmo que ninguém o houvesse culpado.
No dia 16 de dezembro, somente quatro dias após o início da ofensiva de Hoth, o 1º e o 3º Exércitos de Guardas, bem como os remanescentes do 6º Exército Soviético atacaram em direção ao Sul. Retardados por uma névoa pesada e congelante, com suas formações de tanques desatinando-se em meio a campos minados, a operação soviética não tivera um bom começo. Dentro de dois dias, entretanto, o 8º Exército Italiano havia-se desmoronado depois de vários atos de resistência selvagem. Não havia qualquer reserva pronta para contra-atacar, agora que a 17ª Divisão Panzer havia se juntado às operações de Hoth ao leste do Don, então as colunas de tanques russos invadiram as estepes congeladas ao sudoeste. O grande frio na região, que começou no dia 16 de dezembro, afetou pouco a velocidade das brigadas de T-34 que galgavam em direção à retaguarda do Grupo de Exércitos do Don. Junções e estações ferroviárias foram capturadas assim que os vagões cheios de equipamento eram incendiados pelas tropas de suporte alemães antes de fugirem.
A ameaça mais grave para os alemães era o avanço de 150 milhas do 24º Corpo Blindado do Major-General Vasily Mikhailovich Badanov. Na tarde de 23 de dezembro, ele ultrapassou Skassirskaya, poucas milhas ao norte de Tatsinskaya, a base principal de Junkers 52 para Stalingrado. O General Fiebig havia recebido ordens do quartel-general do Führer que suas aeronaves não deveriam abandonar o campo até que estivessem sob fogo direto de artilharia. Ninguém do séqüito de Hitler parecia ter imaginado a possibilidade de que uma coluna blindada poderia chegar às margens do campo e então abrir fogo.
Fiebig e seus oficias estavam furiosos, o campo sempre poderia ser recapturado, mas se as aeronaves de transporte fossem perdidas, o Sexto Exército estaria condenado. Eles não possuíam tropas terrestres para defender "Tazi", como a Luftwaffe chamava o campo. Tudo que estava ao seu alcance era utilizar sete armas "flak" para cobrir a estrada, além de preparar todas as aeronaves em serviço para decolar imediatamente nas primeiras horas da manhã. Havia tantos transportes que esta tarefa se provaria mais difícil do que o esperado. "Em torno da pista de decolagem havia tremendo caos, com os motores funcionando ninguém conseguia ouvir nada", conforme notou um oficial de Richtofen presente no dia. Para tornar as coisas ainda piores, havia uma espessa névoa, o teto de nuvens estava bem baixo, a 150 pés e caía uma neve fina.
Às 5:20 AM, os primeiros projéteis explodiram. A coluna de tanques soviéticos havia se aproximado pela planície e não pela estrada. Muitos pilotos, devido ao barulho e ao caos no campo de pouso, não haviam ainda percebido o que estava acontecendo, até mesmo quando dois Junkers 52 foram atingidos e incendiaram-se. O próprio Fiebig deu as ordens pelo rádio: "Decolem, vão para Novocherkassk!". Os pilotos não perderam um minuto sequer: "O vôo de Tatsinskaya" havia começado. Considerando a confusão anterior, havia de fato muito pouco pânico enquanto as aeronaves decolavam ordenadamente em fila, apesar das crescentes baixas registradas. Para os T-34 russos, era como um campo de tiro ao alvo, um tanque abalroou um dos transportes que taxiava na pista de decolagem, a explosão consumiu ambos. Outras numerosas aeronaves colidiram com aviões estacionados na pista ou recebiam tiros diretos dos blindados. A visibilidade estava ficando pior a cada minuto, com as colunas de fumaça se misturando a névoa, e os aviões restantes tinham que negociar sua passagem através dos amontoados de destroços flamejantes. Finalmente às 6:15, o avião do General Fiebig, um dos últimos a decolar, estava no ar. No somatório final, 108 trimotores Ju-52 e 16 Ju-86 de treino foram salvos, mas a perda de 72 aeronaves representou baixa da ordem de 10% no total de transportes da Luftwaffe.
Badanov, após seu avanço relâmpago, encontrou-se isolado por cinco dias, martelado impiedosamente e sem munição. Apesar disso, Stalin estava satisfeitíssimo com sua performance: a formação foi renomeada como 2º Corpo Blindado de Guardas e Badanov foi o primeiro a receber a recém-criada Ordem de Suvorov. A propaganda do Exército Vermelho clamara que seus tanques haviam destruído 431 aeronaves, mas este era um típico exagero. O resultado importante, entretanto, foi que o campo de Tatsinskaya não foi mais utilizado para missões de transporte novamente. A Luftwaffe teve que recuar para diversos outros campos provisórios, mais distantes da cidade sitiada.
O resultado da missão de resgate de Hoth já havia sido decidido. A ameaça ao flanco do Grupo de Exércitos do Don, e a possibilidade de um avanço em direção a Rostov (aparentemente confirmada pelo interrogatório de um oficial do 3º Exército de Guardas, capturado no dia 20 de dezembro), forçou Manstein a reconsiderar toda a sua posição. As divisões panzer em Myshkova estavam também recebendo pesado fogo de bateria, com a 6ª Divisão Panzer perdendo 1.100 homens em um único dia. Na noite de 23 de dezembro, o Corpo Panzer de Hoth recebeu ordens de recuar, sem qualquer explicação. "Para a maioria dos oficiais juniores estava absolutamente claro que isto significava a derrota de Stalingrado. Embora ninguém soubesse exatamente as razões por trás das ordens, todos tínhamos certeza que algo de muito ruim havia acontecido.", escreveu o General Raus.
Naquela mesma noite, Paulus e Manstein discutiram suas posições em uma conferência realizada por teleprinter. Manstein advertiu que o 4º Exército Panzer havia encontrado resistência pesada e que as tropas italianas no flanco norte tinham entrado em colapso. Paulus perguntou se ele finalmente recebera permissão para romper o cerco e recuar, ao qual Manstein respondeu que ainda não obtivera aceitação do supremo quartel-general. Manstein claramente economizava os detalhes, se Paulus tivesse recebido informações suficientes para atualizar seu mapa de operações, ele veria que o Sexto Exército estava além de qualquer ajuda.
Fonte deste artigo: Stalingrad - Antony Beevor - PenguinA MADONNA DE STALINGRADOA BATALHA DE STALINGRADO



Cego devido as fulminantes vitórias iniciais de sua blittzkrieg, Hitler decidiu dedicar-se a uma presa de maior valor que era a União Soviética. A Campanha Barbarossa mostrou-se uma das mais terríveis, sangrentas e cruéis campanhas da história das guerras e a Batalha de Stalingrado iniciada no final do verão de 1942, prosseguindo até fevereiro de 1943, mostrou-se a mais cruel e importante de todas elas, pois foi nessa batalha que ficou provado que o poderoso e “invencível” Exército Alemão podia ser vencido. Depois de Stalingrado o Exército alemão nunca mais foi o mesmo.


Hitler lançou na batalha divisões inteiras em ataques suicidas, as quais foram aniquiladas em combates sangrentos, o Sexto Exército alemão, o mais bem equipado e preparado de todas forças armadas alemãs, composto de 300.000 soldados foi completamente aniquilado, tendo todo seu equipamento perdido. Do total do Sexto Exército, 250.000 de seus soldados foram cercados em um bolsão ( kessel) pelas tropas russas numa armadilha mortal, fustigados pelo implacável frio glacial, sem suprimentos, sem munição, sem uniformes adequados para o frio não raro de -40ºC.


A vitória alemã esteve várias vezes ao alcance dos alemães, mas lhe foi negada pela tenacidade do povo russo. Os envolvidos nos combates, em especial os alemães, foram arrastados pelos acontecimentos, pela natureza e proporção sem precedentes na história das guerras e se viram vitimados e com pouca esperança de escapar de algo que poderia ser comparado, literalmente, ao inferno na terra. Esse inferno na terra era Stalingrado. Os líderes soviéticos exerciam uma coerção brutal e insana sobre seus próprios soldados, chagando a executar cerca de 13.500 soldados, muitas vezes por qualquer ato que se parecesse, simplesmente, com “vacilar em combate”.

A doutrina militar alemã era baseada no principio do combate com forças armadas combinadas e uma cooperação próxima e conjunta dos blindados, infantaria, engenharia, artilharia e bombardeio aéreo do solo inimigo. Para conter isso, os soviéticos adotaram a tática de simplesmente se colocar nas linhas de frente o mais próximo que fosse fisicamente possível dos inimigos alemãe, escapando o máximo que pudesse da artilharia e bombardeios aéreos, geralmente feitos às suas costas. Isto fazia com que as tropas alemães tivessem que avançar por seu próprio risco num combate corpo a corpo. E isso acontecia quando os russos não podiam evitar o combate frontal, uma vez que Moscou proibira categoricamente os ataques frontais aos pontos fortes dos alemães, insistindo em vez disso, nas táticas de desbordo e nisso o Exército Vermelho se mostrou mais dificil de ser vencido. Combates cruéis aconteciam em cada rua, sótão, fábrica ou porão de cada casa ou construção. Os alemães brincavam amargamente com isso, ao dizerem que capturavam uma cozinha, mas ainda lutavam na sala de estar. A estação de trem de Stalingrado mudou de mãos quatorze vezes em seis horas de combates.
As lutas foram absurdamente feroses, brutais, sangrentas e particularmente sem piedade, as posições mudavam de mãos diversas vezes. Não era raro, em um contra-ataque ser perdida uma divisão inteira de 10 mil homens num único dia, sendo que os inimigos, também, matavam esse número aproximado. Essa situação exauriu o Sexto Exército Alemão, favorecendo os russos. Mesmo com o crescente numero de baixas alemãs e a dificuldade cada vez maior em abastacer, tamanho exército, em alimentos, reposição de material e munição, o que logicamente seria a decisão de se retroceder com o exército para se evitar um cerco e o colápso final, Hitler foi intransigente na sua megalomanica loucura e proibiu qualquer recuo do Sexto Exército, enviando a ordem de se manter a “Fortaleza Stalingrado” a qualquer custo, devendo se aguardar o abastecimento por ar ( aviões de abastecimento). O Sextoº Exército foi cercado!



A mínima necessidade diária para se manter o Sexto Exército dentro do cerco (kassel), era de 700 toneladas, devendo ser levadas para dentro do cerco por meio de aviões de abastacimento. Foi prometido o abastecimento, insuficiente, de 500 toneladas/dia, mas somente se conseguiu enviar para o kassel 350 toneladas e por poucos dias. As esperanças de todos generais, oficiais e soldados envolvidos no destino do Sexto Exército foram finalmente destruídas com uma outra decisão do Füher vinda do Quartel- General que denominava e demarcava toda a posição do Sexto Exército como “Fortaleza Stalingrado”, devendo esse front ser mantido “quaisquer que sejam as circunstâncias”.
A situação do Sexto Exército foi reduzida à condições muito semelhantes às da Primeira Guerra Mundial, após o frio de meados de novembro, instalou-se um úmido período de degelo e as condições insalubres não demoraram a se instalar, não raro tropas ocupavam posições nas estepe aberta, que era “desgraçadamente gelada à noite”. Os soldados era obrigados a aguentar, além da inanição e o frio intenso a imundície e piolhos, soldados dormiam amontoados como sardinhas em buracos nos terrenos abertos com uma lona impermeável. A paisagem era triste, melancólica e monótona. Temperatura de inverno com vários graus de frio e neve, queimavam e gangrenavam dedos de mãos e pés, bem como as faces apresentavam queimaduras de frio desfigurantes. Chuva intensa, geada e de repente degelo. À noite ratos. A infestação progressiva das roupas começou de fato durante os caóticos dias do cerco com a infestação de piolhos assustadora, pois os soldados não tinham como se levar, mudar de roupas ou matar os piolhos.



As tropas alemãs achavam-se no mais completo e inegável desbaratamento moral. Piolhos, disenteria, frio de – 40ºC , tifo, inanição causavam mais baixas que o fogo inimigo, sendo que os soldados alimentavam-se de carniça, sopa de urtiga e outras ervas.

A MADONNA DE STALINGRADO

Com a aproximação do Natal todo o Sexto Exército sitiado estava muito preocupado com o assunto “Natal”, os esforços foram extraordinários para os preparativos da comemoração, abaixo das casamatas cavadas na terra congelada. Sem dúvidas a letargia causada pela má nutrição , combinada pelos devaneios escapistas resultado da distância dos familiares a milhares de quilômetros, familiares estes que certamente já estavam sofrendo os bombardeios americanos e ingleses em solo alemão, sendo que os soldados sitiados em Stalingrado, tão longe de casa, não podiam fazer nada para proteger os entes queridos, uma vez que nem a eles próprios podiam defender.
Várias unidades abateram cavalos de carga para fazer “salsichas de cavalo” como presentes de natal. Montaram coroas de natal com relvas da estepe gelada e esculpiram árvores de Natal em madeira, na desesperada tentativa de fazer parecer “exatamente como as lá de casa “. O grupo militar tornara-se a família substituta, cada soldado tentava dar um pouco de alegria ao outro. Não havia duvidas quanto a generosidade autêntica e espontânea daquele natal. Um tenente, dentre outros tantos lá cercados, deu um dos seus últimos cigarros, papel para se escrever cartas e pão mofado como presentes aos seus subordinados. “ Eu mesmo não tinha nada”, ele escreveu para casa, “ e no entanto foi um dos meus mais belos Natais e jamais esquecerei “. Além de dar rações de cigarros, os soldados davam sua ração de pão que com tanta intensidade necessitavam para se manter vivos.
Em posições que não foram bombardeadas, os homens se amontoaram em casamatas a fim de cantarem a música tradicional alemã para o Natal “ Stille Nacht, heilige Nacht “ ( Noite feliz, noite de paz ) e a cantavam com vozes embargadas. E às sete horas da manhã de Natal, o diário de guerra do Sexto Exército registrou: “ Nenhum vôo de suprimento chegou nas últimas quarenta e oito horas. Suprimentos e combustíveis chegando ao fim.” Mais tarde, naquele mesmo dia, o marechal- de- campo von Paulus, Comandante do Sexto Exército enviou um comunicado de advertência ao Grupo do Exército do Don dizendo: “ Se não recebermos maiores volumes de rações nos próximos dias, teremos de esperar um índice de mortes muito mais alto por exaustão.” E ele não foi atendido.




Kurt Reuber, era o Oficial Médico de 36 anos, da 16ª Divisão Panzer, era teólogo e um talentoso pintor amador e transformou sua casamata na estepe fria a noroeste de Stalingrado num ateliê e começou a pintar no verso de um mapa russo capturado, que era o único pedaço de papel disponível, ele pintou uma imagem envolvente, protetora, quase uterina, de mãe e filho, unida com as palavras de São João Evangelista: “ Luz, Vida, Amor”, aquela casamata em Stalingrado tornou-se uma espécie de um relicário para aqueles soldados desgraçados. Essa obra hoje esta em Berlin, pendurada na igreja memorial do Kaiser Guilherme, é conhecida como a “Fortaleza Nossa Senhora”.
Muitas pessoas ouviram a história da “Madonna de Stalingrado”, talvez sem nem saber como ela foi feita e nem ao meio do caos e completo desamparo em que ela foi criada. Ela foi pintada dias antes do Natal de 1942, em meio as ruínas de Stalingrado. A casamata do Dr. Reuber estava dividida ao meio por um cobertor pendurado. Em um lado ele sobrevivia e no outro o Dr. Reuber atendia os feridos e os que estavam morrendo e foi naquela casamata que foi pintada a “Madonna de Stalingrado”, ele a pintou para aqueles pobres coitados celebrarem do ultimo Natal que a maioria daqueles homens teriam na vida, muitas vezes palavras já não faziam mais efeito para aquelas pobres almas, mas a visão daquela pintura uma criança embalada, protegida pelos braços da mãe, teve o seu efeito benéfico no meio daquele inferno. A imagem, o silêncio, a mãe cuidando de seu filho, pareciam irradiar uma luz interior . O que Kurt Reuber e seus camaradas sentiram naqueles dias esta descrito em sua ultima carta:
Tem sido uma semana de dolorosa espera, os dias são preenchidos com o som da batalha, com muitos mortos e feridos para serem atendidos. Fiquei muito tempo pensando o que eu deveria pintar e ao final me decidi por uma Madonna ou seja uma mãe e seu filho. Transformei meu buraco na terra congelada em um estúdio, o espaço é pequeno para que eu consiga ver a imagem correta com a devida perspectiva e o trabalho era sempre interrompido pelas explosões de granadas que fazem cair repetidamente minhas coisas no chão. Eu pretendi escrever na pintura “Luz, Amor

Bibliografia:
Stalingrado, o princípio do fim: Geoffrey Jukes
Stalingrado, o cerco fatal: Antony Beevor


NOAM CHOMSKY----"OFIM DO SONHO AMERICANO"